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José
Cardó Ollé 1930
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José
Cardo Ollé, nasceu na Espanha, no povoado de Aiguamurcia
próximo da cidade histórica de Tarragona (Catalunha),
testemunhas recentes (1992) do povoado, definiram muito
bem a pessoa de José Cardo, era um homem "honesto,
habilidoso e empreendedor", uma definição
pequena para um homem que foi agricultor, padeiro, forjador,
pedreiro (no sentido da pedra), político, militante
do partido socialista, instrutor de cavalaria, soldado da
República, combatente de guerra civil espanhola,
líder dos companheiros no campo de concentração,
líder de uma cooperativa vinícola.
Seu esporte preferido, seguindo os passos de seu pai, era
a caça (coelhos, perdizes e lebres). Os companheiros
de caça foram quase todas figuras representativas
da região (delegados, prefeitos, padres e historiadores),
que freqüentavam a casa de Aiguamurcia e nunca se desviou
de seu ideal socialista, seus oponentes ideológicos
o respeitavam muito, pois acima de tudo tinha uma postura
pacifista, sempre condenou a guerra.
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José
Cardó Ollé 1963
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Com
o movimento da guerra espanhola 1938/41, José foi
um homem marcado, só sobreviveu porque seus oponentes
ideológicos (vencedores) o protegeram. Em 1950 dez
anos após guerra, tomou a decisão de imigrar
para a "América", com os recursos da venda
das propriedades.
Ele foi o último da Casa "Cal Mas Stret"
fundada em 1486, fruto da Sentencia Arbitral de Guadalupe
(lei promulgada pelos reis católicos da Espanha em
favor dos agricultores) e migrou em 1952 para o Brasil,
com a esposa e quatro filhos, desembarcou em Santos em 05/10/1952.

Para entender isso, é preciso voltar atrás
no tempo e verificar onde José Cardo cresceu. A região
da Catalunha foi palco de grande movimentos históricos:
700 a.C. colonizada
pelos gregos de Rodes (Ampurias);
270 a.C. o general
Romano Spicion instalou-se em Tarragona;
30 a.C. Júlio
César venceu Pompeu na batalha de Illerda (Lleida
atual);
700 d.C os árabes
invadem a Espanha e param nos Pirineus, onde são
empurrados pelo imperador Carlos
Magno até o rio Llobregat (marca hispânica),
os próximos 400 anos a marca chega ao rio Ebro (ao
sul dos Pirineus) e assim formou-se as Fronteiras da Catalunha.
No ano mil o povo, que segundo os historiadores sofreram
muitas invasões porém não se misturaram
etnicamente, tinham assimilado o uso da pedra com argamassa
(cal e areia), o uso da pedra, o moinho de trigo movido
a água , a forja catalana (ficou famosa como "método
Catalão", veja livros sobre siderurgia), a prensa
de uva que foi introduzida pelos Romanos nos campos de Tarragona
em 50 a.C que evoluiu de alavanca com pesos para rosca e
clic até 1750, os modelos melhorados ainda funcionavam
em 1950; politicamente tinham evoluído para fazer
acôrdos com seus oponentes ("A Concordata"
muito usada por políticos Catalães).
A religião, do ano 1000 até 1492 era livre,
com predominância Cristã, a partir de 1492
com os reis católicos as outras religiões
foram banidas, em especial dos Judeus e dos Árabes
(maometanos). Poetas populares cantam em lamentos o quanto
à Espanha perdeu com a expulsão dos Árabes.
Neste contexto, o homem do campo (paijes), sempre escravo
do senhor das terras ganhou um presente dos reis católicos,
uma reforma no campo, a "Sentencia Arbitral de Guadalupe",
uma espécie de liberdade para o oprimido lavrador,
dentro destes benefícios os "Cardo", construíram
sua sede na pequena praça de Aiguamurcia, junto com
outras quatro famílias, a casa foi construída
com frente muito estreita devido ao espaço disponível,
dandos origem ao nome "Cal Mass Stret" (cal-os,
mass-casa e stret-estreito), isto é, os da casa estreita.
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Casa
de Aiguamurcia 1950
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Depois
evoluiu para "Cal Massestret", esta casa foi sede
da família até 1904, quando o pai de José
Cardo comprou uma maior construída em 1100, as duas
casas ainda existem e estão bem conservadas.
A nova sede passou a chamar-se "Cal Sisco Massestret",
traduzindo seria "Casa de Francisco da Casa Estreita".
Em
1950, a casa possuía a seguinte estrutura:
Sala de armas (oficina
de armas)
Forja (com fole e bigorna)
Marcenaria (fabricavam
"Botes"- barris de madeira)
Água, luz elétrica
e esgoto.
Um ambiente para manufaturas
artesanais de madeira, ferro forjado e era palco de discussões
políticas e religiosas,
já que um primo de José, foi Cônego
de Barcelona em 1936 (escritor e redator da
revista Bom Pastor).
Portanto, se podemos acreditar que o homem é grande
parte do fruto da tradição e comportamento
do meio, sendo que o meio foi muito fértil, estava
pronto o "inventor José Cardo Ollé".

José Cardo, em 1957 já tinha estabilizado
a vida com muito trabalho e ajuda dos filhos, logo teve
excedente (era um Pater Família), em 1958 buscando
outras formas de rendimento, alugou uma olaria e analisou
como era produzido o tijolo, já não dormiu
mais, desistiu do método artesanal e partiu para
uma solução mais produtiva.
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Testemunho
roda de madeira
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1ª
Etapa - Constuir uma máquina de madeira
Era uma roda de madeira com uns 20 formas, com fundo móvel
fixado num pino, que era usado para extrair o tijolo, para
comprimir o barro tinha dois rolos superiores (veja foto
ao lado). Esta máquina foi elaborada e testada durante
seis meses, tudo movido por manivelas e funcionou precariamente.
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Desenho Tijoleira Móvel
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Persperctica
Tijoleira Móvel
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2ª
Etapa - Construir uma Máquina de Ferro
Depois de longas discussões, foi desenhar e construir
uma máquina de ferro móvel, que deixaria o tijolo
no terreno para pré-secagem, método usado no
tijolo feito à mão. Esta máquina foi
elaborada e testada durante um ano (custo alto). Funcionou,
mas ficou inviável alimenta-la em movimento, fazia
20 tijolos/ minuto e tinha duas rodas.
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Desenho
Tijoleira Fixa
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3ª
Etapa - Um Parceiro (R. Cerveline Ltda.)
Foi feita uma máquina fixa, com esteira extratora,
foram construídos e vendidos vários modelos
desta máquina, assim nascia a revolução
nas olarias, depois descobrimos que não estávamos
sós. Os testes da tijoleira "Cardo" têm
muitas histórias uma delas é que tivemos muitos
torcedores e até colaboradores e muitas críticas
também.
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Catálogo
Tijoleira Cardo
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Os
primeiros testes, foram feitos na olaria modelo do Dr. Nicolau
Assef, em Ouro Fino (Ribeirão Pires/SP), esta olaria
era uma utopia pelo menos 50 anos na frente da realidade,
tinha forno túnel com secador e zona de queima. Chegou
a funcionar com a primeira máquina, mas quebrava
muito, e tinha-se problemas com desmoldante, mais tarde
descobriu-se que em telha já era usado há
muito tempo, uma mistura de querosene e estearina (foi a
solução para o problema do desmoldante).
Fabricaram cerca de 250.000 tijolos e pararam, pois o forno
era gasogênio e depois foi usado óleo queimado,
infelizmente ficou inviável e parou, um desastre
econômico e uma vitória tecnológica.
Neste contexto de invenção fabricação
e comercialização, aventurei-me a visitar
o "rei do tijolo", na região de Rebeirão
Pires, o Sr. Cosmo Rigo tinha várias olarias convencionais,
recebeu-me muito bem, mas após minha explicação
sobre máquina de tijolos, fui colocado para fora
da olaria sem cerimônias, alegando que o tijolo de
maquina era liso e o reboque não iria aderir, este
argumento foi usado amplamente pelos concorrentes convencionais
(à mão), por mais de uma década.
Tivemos os que acreditaram, o nosso primeiro cliente comercialmente
falando foi o Sr. Waldemar, que chegou a funcionar precariamente,
pois a nossa máquina não misturava o barro
só substituia o "Batedor".
Acredito
que chegaram aproximadamente aos 700.000 tijolos, tudo caminhava
muito bem e iniciamos as melhoras que o mercado precisava.
Primeiro reforçamos
a máquina.
Segundo fizemos uma
pipa separada.
Terceiro anexamos a
pipa na máquina.
Em
1964, tínhamos chegado quase aos 30 tijolos/minuto
e já falavam em 5.000.000 tijolos. E fomos sorprendidos
pelo movimento de 1964, então tudo parou e José
e família, viram-se com os negócios parados
também.
A sociedade com R. Ceveline, ficou abalada e a fabricação
da máquina só foi recomeçada em 1977,
onde foram construídas algumas dezenas de unidades
da "Cardo C".
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Desenhos
Tijoleira Cardo C
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Tijoleira
CArdo C
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A
fabricação deste modelo foi provisória,
sem uma boa estrutura de assistência e foi decidido
parar definitivamente em 1978.
Em 1995, José Cardó Ollé uma pioneiro
da "Tijoleira", morreu em Presidente Prudente,
na casa de um filho, nunca foi a um hospital em toda sua
vida, simplesmente parou de funcionar.
José Cardo Ollé, teve uma vida plena e a "Tijoleira"é
mais que uma capítulo de inúmeras realizações
e podemos afirmar com toda certeza, que no Estado de São
Paulo o tijolo feito à mão, já faz
parte do passado.

1905-
nasce filho de Francisco Cardo Boronat e Maria Ollé
Ferre.
1925- serve o exército da monarquia e é
promovido a instrutor de cavalaria.
1930- milita no partido socialista espanhol de forma
informal.
1936-
Casa-se com Antonia Batet Mateu, de uma família tradicional
de Aiguamurcia.
1938- Participa do movimento da República
espanhola.
1939-
participa como combatente da República, sendo um
dos poucos sobreviventes de seu batalhão na "Batalha
do Ebro", foi prisioneiro por oito meses num campo
de concentração dos "Nacionales".
1941- com o fim da guerra, volta para casa e reinicia
a padaria do Povoado e recuperando as terras de seu pai.
1942- nasce seu último filho (agora eram quatro
homens).
1952- faz opção pela "América"chega
ao Brasil em Santos no navio Florida.
1953-
Monta de "a meias"com fazendeiro de Capelinha
próximo de Guarulhos, um viveiro de cítricos
de 150.000 mudas e mais agricultura de subsistência.
1954- o mercado de mudas de cítricos não
é bom e muda-se para um sítio do Itaim Paulista
(próximo a São Miguel Paulista) também
de "a meias"(agricultura e granja), já
possuía um trator.
1955- desanimado com a estrutura "meieira"das
terras, resolve de uma vez por todas optar pela cidade.
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Filhos:
Francisco, Jaime, Platão, José(1965)
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Antonia
1936 (Espanha)
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Pedido
de patente 133400
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1957-
com ajuda dos filhos, já grandes. Fixa-se em Santo
André/SP e em 1958 já estava estável
com renda e alguns bens.
1958 - constrói a Tijoleira Cardo (1961 a
1977 - 125 unidades fabricadas)
1975- com 70 anos mudou-se para Presidente Prudente
e passou tudo para os filhos.
1977- perde a companheira de sua grande jornada.
1995- morre na única vez em que vai a um hospital,
de insuficiência pulmonar.
Está
é uma homenagem ao inventor José Cardo Ollé,
pois mesmo que não obteve o sucesso financeiro esperado
em nenhum momento de sua vida passou privações
humilhantes. Viveu como todo ser inconformado, tentando
mudar o "normal" em direção ao desconhecido
e nunca mais se fez um tijolo à mão.
F.C.
Batet