Esboços de Leonardo Da Vinci (1475)
Nosso Patrono


José Cardó Ollé 1930

José Cardo Ollé, nasceu na Espanha, no povoado de Aiguamurcia próximo da cidade histórica de Tarragona (Catalunha), testemunhas recentes (1992) do povoado, definiram muito bem a pessoa de José Cardo, era um homem "honesto, habilidoso e empreendedor", uma definição pequena para um homem que foi agricultor, padeiro, forjador, pedreiro (no sentido da pedra), político, militante do partido socialista, instrutor de cavalaria, soldado da República, combatente de guerra civil espanhola, líder dos companheiros no campo de concentração, líder de uma cooperativa vinícola.
Seu esporte preferido, seguindo os passos de seu pai, era a caça (coelhos, perdizes e lebres). Os companheiros de caça foram quase todas figuras representativas da região (delegados, prefeitos, padres e historiadores), que freqüentavam a casa de Aiguamurcia e nunca se desviou de seu ideal socialista, seus oponentes ideológicos o respeitavam muito, pois acima de tudo tinha uma postura pacifista, sempre condenou a guerra.

José Cardó Ollé 1963

Com o movimento da guerra espanhola 1938/41, José foi um homem marcado, só sobreviveu porque seus oponentes ideológicos (vencedores) o protegeram. Em 1950 dez anos após guerra, tomou a decisão de imigrar para a "América", com os recursos da venda das propriedades.
Ele foi o último da Casa "Cal Mas Stret" fundada em 1486, fruto da Sentencia Arbitral de Guadalupe (lei promulgada pelos reis católicos da Espanha em favor dos agricultores) e migrou em 1952 para o Brasil, com a esposa e quatro filhos, desembarcou em Santos em 05/10/1952.


Para entender isso, é preciso voltar atrás no tempo e verificar onde José Cardo cresceu. A região da Catalunha foi palco de grande movimentos históricos:

     • 700 a.C. colonizada pelos gregos de Rodes (Ampurias);
     • 270 a.C. o general Romano Spicion instalou-se em Tarragona;
     • 30 a.C. Júlio César venceu Pompeu na batalha de Illerda (Lleida atual);
     • 700 d.C os árabes invadem a Espanha e param nos Pirineus, onde são empurrados pelo imperador      Carlos Magno até o rio Llobregat (marca hispânica), os próximos 400 anos a marca chega ao rio Ebro      (ao sul dos Pirineus) e assim formou-se as Fronteiras da Catalunha.

No ano mil o povo, que segundo os historiadores sofreram muitas invasões porém não se misturaram etnicamente, tinham assimilado o uso da pedra com argamassa (cal e areia), o uso da pedra, o moinho de trigo movido a água , a forja catalana (ficou famosa como "método Catalão", veja livros sobre siderurgia), a prensa de uva que foi introduzida pelos Romanos nos campos de Tarragona em 50 a.C que evoluiu de alavanca com pesos para rosca e clic até 1750, os modelos melhorados ainda funcionavam em 1950; politicamente tinham evoluído para fazer acôrdos com seus oponentes ("A Concordata" muito usada por políticos Catalães).

A religião, do ano 1000 até 1492 era livre, com predominância Cristã, a partir de 1492 com os reis católicos as outras religiões foram banidas, em especial dos Judeus e dos Árabes (maometanos). Poetas populares cantam em lamentos o quanto à Espanha perdeu com a expulsão dos Árabes.

Neste contexto, o homem do campo (paijes), sempre escravo do senhor das terras ganhou um presente dos reis católicos, uma reforma no campo, a "Sentencia Arbitral de Guadalupe", uma espécie de liberdade para o oprimido lavrador, dentro destes benefícios os "Cardo", construíram sua sede na pequena praça de Aiguamurcia, junto com outras quatro famílias, a casa foi construída com frente muito estreita devido ao espaço disponível, dandos origem ao nome "Cal Mass Stret" (cal-os, mass-casa e stret-estreito), isto é, os da casa estreita.

Casa de Aiguamurcia 1950

Depois evoluiu para "Cal Massestret", esta casa foi sede da família até 1904, quando o pai de José Cardo comprou uma maior construída em 1100, as duas casas ainda existem e estão bem conservadas.
A nova sede passou a chamar-se "Cal Sisco Massestret", traduzindo seria "Casa de Francisco da Casa Estreita".

 

Em 1950, a casa possuía a seguinte estrutura:

     • Sala de armas (oficina de armas)
     • Forja (com fole e bigorna)
     • Marcenaria (fabricavam "Botes"- barris de madeira)
     • Água, luz elétrica e esgoto.
     • Um ambiente para manufaturas artesanais de madeira, ferro forjado e era palco de discussões      políticas e religiosas, já que um primo de José, foi Cônego de Barcelona em 1936 (escritor e redator      da revista Bom Pastor).

Portanto, se podemos acreditar que o homem é grande parte do fruto da tradição e comportamento do meio, sendo que o meio foi muito fértil, estava pronto o "inventor José Cardo Ollé".



José Cardo, em 1957 já tinha estabilizado a vida com muito trabalho e ajuda dos filhos, logo teve excedente (era um Pater Família), em 1958 buscando outras formas de rendimento, alugou uma olaria e analisou como era produzido o tijolo, já não dormiu mais, desistiu do método artesanal e partiu para uma solução mais produtiva.

Testemunho roda de madeira

1ª Etapa - Constuir uma máquina de madeira
Era uma roda de madeira com uns 20 formas, com fundo móvel fixado num pino, que era usado para extrair o tijolo, para comprimir o barro tinha dois rolos superiores (veja foto ao lado). Esta máquina foi elaborada e testada durante seis meses, tudo movido por manivelas e funcionou precariamente.



Desenho Tijoleira Móvel
Persperctica Tijoleira Móvel
2ª Etapa - Construir uma Máquina de Ferro
Depois de longas discussões, foi desenhar e construir uma máquina de ferro móvel, que deixaria o tijolo no terreno para pré-secagem, método usado no tijolo feito à mão. Esta máquina foi elaborada e testada durante um ano (custo alto). Funcionou, mas ficou inviável alimenta-la em movimento, fazia 20 tijolos/ minuto e tinha duas rodas.



Desenho Tijoleira Fixa

3ª Etapa - Um Parceiro (R. Cerveline Ltda.)
Foi feita uma máquina fixa, com esteira extratora, foram construídos e vendidos vários modelos desta máquina, assim nascia a revolução nas olarias, depois descobrimos que não estávamos sós. Os testes da tijoleira "Cardo" têm muitas histórias uma delas é que tivemos muitos torcedores e até colaboradores e muitas críticas também.

Catálogo Tijoleira Cardo

Os primeiros testes, foram feitos na olaria modelo do Dr. Nicolau Assef, em Ouro Fino (Ribeirão Pires/SP), esta olaria era uma utopia pelo menos 50 anos na frente da realidade, tinha forno túnel com secador e zona de queima. Chegou a funcionar com a primeira máquina, mas quebrava muito, e tinha-se problemas com desmoldante, mais tarde descobriu-se que em telha já era usado há muito tempo, uma mistura de querosene e estearina (foi a solução para o problema do desmoldante).
Fabricaram cerca de 250.000 tijolos e pararam, pois o forno era gasogênio e depois foi usado óleo queimado, infelizmente ficou inviável e parou, um desastre econômico e uma vitória tecnológica.

Neste contexto de invenção fabricação e comercialização, aventurei-me a visitar o "rei do tijolo", na região de Rebeirão Pires, o Sr. Cosmo Rigo tinha várias olarias convencionais, recebeu-me muito bem, mas após minha explicação sobre máquina de tijolos, fui colocado para fora da olaria sem cerimônias, alegando que o tijolo de maquina era liso e o reboque não iria aderir, este argumento foi usado amplamente pelos concorrentes convencionais (à mão), por mais de uma década.

Tivemos os que acreditaram, o nosso primeiro cliente comercialmente falando foi o Sr. Waldemar, que chegou a funcionar precariamente, pois a nossa máquina não misturava o barro só substituia o "Batedor".

Acredito que chegaram aproximadamente aos 700.000 tijolos, tudo caminhava muito bem e iniciamos as melhoras que o mercado precisava.
     • Primeiro reforçamos a máquina.
     • Segundo fizemos uma pipa separada.
     • Terceiro anexamos a pipa na máquina.

Máquina B a 1° com pipa acoplada 1964
Catálogo Tijoleira Cardo B
Croqui da Tijoleira acoplada com pipa (B)

Em 1964, tínhamos chegado quase aos 30 tijolos/minuto e já falavam em 5.000.000 tijolos. E fomos sorprendidos pelo movimento de 1964, então tudo parou e José e família, viram-se com os negócios parados também.
A sociedade com R. Ceveline, ficou abalada e a fabricação da máquina só foi recomeçada em 1977, onde foram construídas algumas dezenas de unidades da "Cardo C".

Desenhos Tijoleira Cardo C
Tijoleira CArdo C

A fabricação deste modelo foi provisória, sem uma boa estrutura de assistência e foi decidido parar definitivamente em 1978.
Em 1995, José Cardó Ollé uma pioneiro da "Tijoleira", morreu em Presidente Prudente, na casa de um filho, nunca foi a um hospital em toda sua vida, simplesmente parou de funcionar.
José Cardo Ollé, teve uma vida plena e a "Tijoleira"é mais que uma capítulo de inúmeras realizações e podemos afirmar com toda certeza, que no Estado de São Paulo o tijolo feito à mão, já faz parte do passado.


1905- nasce filho de Francisco Cardo Boronat e Maria Ollé Ferre.

1925- serve o exército da monarquia e é promovido a instrutor de cavalaria.

1930- milita no partido socialista espanhol de forma informal.

José e Antonia 1936

1936- Casa-se com Antonia Batet Mateu, de uma família tradicional de Aiguamurcia.

1938- Participa do movimento da República espanhola.

1939- participa como combatente da República, sendo um dos poucos sobreviventes de seu batalhão na "Batalha do Ebro", foi prisioneiro por oito meses num campo de concentração dos "Nacionales".

1941- com o fim da guerra, volta para casa e reinicia a padaria do Povoado e recuperando as terras de seu pai.

1942- nasce seu último filho (agora eram quatro homens).

1952- faz opção pela "América"chega ao Brasil em Santos no navio Florida.

Igreja de Capelinha 1967

1953- Monta de "a meias"com fazendeiro de Capelinha próximo de Guarulhos, um viveiro de cítricos de 150.000 mudas e mais agricultura de subsistência.

1954- o mercado de mudas de cítricos não é bom e muda-se para um sítio do Itaim Paulista (próximo a São Miguel Paulista) também de "a meias"(agricultura e granja), já possuía um trator.

1955- desanimado com a estrutura "meieira"das terras, resolve de uma vez por todas optar pela cidade.

Filhos: Francisco, Jaime, Platão, José(1965)
Antonia 1936 (Espanha)
Pedido de patente 133400

1957- com ajuda dos filhos, já grandes. Fixa-se em Santo André/SP e em 1958 já estava estável com renda e alguns bens.

1958 - constrói a Tijoleira Cardo (1961 a 1977 - 125 unidades fabricadas)

1975- com 70 anos mudou-se para Presidente Prudente e passou tudo para os filhos.

1977- perde a companheira de sua grande jornada.

1995- morre na única vez em que vai a um hospital, de insuficiência pulmonar.

Está é uma homenagem ao inventor José Cardo Ollé, pois mesmo que não obteve o sucesso financeiro esperado em nenhum momento de sua vida passou privações humilhantes. Viveu como todo ser inconformado, tentando mudar o "normal" em direção ao desconhecido e nunca mais se fez um tijolo à mão.

F.C. Batet